«Querido leitor, escrevo-te da Montanha, do sítio onde medram as raízes deste blogue»

quinta-feira, 17 de maio de 2012

“Olhares Montanheiros"- A paixão da montanha em livro


Foto de João M. Gil

"Apesar de já ter lido a obra, "Olhares Montanheiros" de João M. Gil e Nuno Verdasca por diversas ocasiões, umas vezes respeitando a ordem cronológica dos textos, e outras aleatoriamente, a verdade é que de cada vez que folheio uma página e leio o respectivo texto, ou até quando presto um pouco mais de atenção a uma determinada fotografia, fico sempre com a estranha sensação de «aonde é que eu vi ou senti isto?». Na minha opinião, trata-se, acima de tudo, de uma obra criada e elaborada por 2 homens que vivem da e para a montanha. Do livro podemos esperar um olhar fiel, sincero, apaixonado, um olhar verdadeiramente montanheiro.
Recomendo vivamente a leitura desta deliciosa obra.
Segue em anexo o prefácio integral de Carlos Pinto Coelho."
Pedro Durães


Prefácio I
Eles subiram às nuvens e trouxeram um livro

Todos os dias milhares de homens sobrevoam os picos gelados dos cumes ibéricos, bebendo café e folheando uma revista, no conforto de aviões aquecidos. De tanto passar ali, já nem se espreita o cenário pela janela. Importam mais os minutos que faltam para o fim da viagem, do que o coalho branco que jaz lá em baixo, quieto e distante como uma velha pintura de sala.

O que leva, então, um punhado de outros humanos prestarem-se a pé, com carga às costas, à dureza de itinerários rudes, à deriva de caminhos errados e aos rigores das altitudes, num puro despropósito, quando todas aquelas paisagens foram já descobertas e todos aqueles cenários vistos, fotografados e filmados até à exaustão? Que acintes, que impulsos, que energias fazem despertar para a retoma do já conhecido e explorado? Como será o tempo interior de cada um desses viandantes, de que fé ou almejo são eles peregrinos, que obscura meta perseguem eles? E em que momento se sentirão eles por fim saciados, sabendo que haverá sempre mais caminho por desbravar, mais perigos por experimentar, mais adrenalina por consumir, mais encanto para surpreender? Onde fica a palavra FIM no itinerário destes aventureiros?
Tudo parece incongruente.

No entanto, tudo faz todo o sentido. Como a reclusão feliz do eremita na sua cela voluntária, a alegria do navegador solitário entre o oceano e o céu, ou a febre benfazeja do compositor ao piano, buscando a partitura sonhada. Tal como um atleta que se mortifica no massacre diário dos seus músculos, assim se constroem mil vidas diversas do existir dos homens. Quando soa a grande música da existência, são as arritmias que dão cor à harmonia, são as dissonâncias que temperam os andamentos, são os harmónicos que iluminam os acordes. Sem tais coisas não haveria paleta bastante para acolher todos os matizes com que se enfeita a vida.
Visto o porquê da razão de ser deste livro, resta percebê-lo. E acolhê-lo no seu absoluto despojamento formal. Onde só reside a carinhosa intenção de partilhar, em jeito de diário puro e simples, o que foram muitas horas e muitos dias de humano deambular entre pedras e nuvens, árvores e horizontes, cheiros e cansaços, sobressaltos e contemplações, temperaturas e matrizes de um imenso território. Num registo seguro, tranquilo e comedidamente apaixonado, onde a fotografia não se impõe à palavra, antes a sublinha.

…. E fica-se a gostar das personagens desta história. É que, para subir às montanhas e olhar de alto o mundo há que saber onde pôr os pés a cada singelo passo. Os autores deste livro fizeram-no bem. E agora vêm relatar-nos os seus feitos, com uma fidelidade que nos prende e uma candura que nos conforta.
Carlos Pinto Coelho
Um Fotógrafo e Contador de Histórias

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