«Querido leitor, escrevo-te da Montanha, do sítio onde medram as raízes deste blogue»

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Serra da Cabreira- “A Lenda da Serra da Cabreira”

31 de Outubro de 2012

Vizinha da robusta e entroncada serra do Gerês, a serra da Cabreira surpreende-me pela sua feminilidade, visível (aos olhos de quem realmente quer ver) nas linhas delicadas e onduladas da montanha, debruada por bonitos vales que se abrem suavemente ao longo das encostas da montanha, e planaltos coloridos e perfumados, que mais parecem jardins do éden.
A essa feminilidade não é alheio o próprio nome da serra. Segundo a lenda, diz-se que certo dia uma moça vinda dos lados de Espanha, desenvolta, jovem e bonita, chegou à fronteira, que praticamente não existia, e deixou-se ficar com o seu rebanho de cabras, na bela paisagem que a encantava. Numa manhã de sol, um cavaleiro muito elegante, que andava à caça com outros caçadores pelas redondezas, ficou maravilhado diante da jovem pastora. Aproximando-se, desmontou do cavalo e cumprimentou-a docemente. Com um sorriso de promessas, o cavaleiro trocou juras de amor, prometendo ficar para toda a eternidade naquele local, apenas para a adorar. E assim começou mais uma história de amor. Apaixonados e felizes, como se só eles existissem no mundo, por ali ficaram, recolhidos naquele recanto paradisíaco da serra.
Um dia, o cavaleiro disse à jovem pastora que teria de deslocar-se à sua terra natal, mas que voltaria. Triste, suspirando, ela apenas perguntou pelo seu nome, já que nem sequer sabia como ele se chamava. Sorridente e dominador, o cavaleiro disse que era o conde de uma vila próxima, mas que não se preocupasse, ele viria em breve, e a levaria para o seu palácio.
E a pastora esperou… esperou… até ficar quase morta de fome, de cansaço e de frio (e de desilusão também). Num desabafo de alma, disse que gostaria de ser ave e voar, para ir ao encontro do amado. E chorou. Chorou tanto que o caudal das suas lágrimas transformou-se num rio, e esse rio foi banhar a terra daquele que a abandonou. Desde esse momento, o povo decidiu homenagear a jovem pastora, dando o seu nome à serra (Cabreira), e o nome de Ave ao rio que vai desaguar à terra do amado (Vila do Conde).
Também eu me apaixonei nas montanhas da Cabreira! Não por uma linda pastora, mas por uma floresta encantadora. De um inegável e riquíssimo valor ecológico, ao qual se junta uma estonteante beleza estética, a Costa dos Castanheiros é um pequeno (e raro) santuário natural. O delicado e harmonioso equilíbrio existente entre diferentes tipos de folhosas (castanheiros, carvalhos, bétulas…) e resinosas (pinheiros, cedros…), aliado à presença constante da ribeira da Lage e do ribeiro Escuro, transformam este recanto da Cabreira num autêntico refúgio, não só para os amantes da natureza, mas principalmente para diversas espécies animais, algumas das quais fortemente ameaçadas e em perigo de extinção. De entre as várias espécies destaco os mamíferos como o lobo (a floresta das Costa dos Castanheiros é indicada como um dos possíveis locais de reprodução da alcateia da Cabreira), o abundante javali, o recentemente introduzido corço, e junto às linhas de água podemos encontrar (se tivermos sorte) a lontra, que mantem uma vigilância constante ao longo das margens dos ribeiros em busca da esquiva truta.
Dito isto, nada mais tenho para vos dizer, e, como de costume, deixo-vos as habituais fotos, que tentam (de forma inglória) mostrar alguns dos momentos «simbólicos» de mais um belo dia passado na montanha, rodeado de magia e encanto, ou não estivesse eu a caminhar pelas montanhas onde outrora uma linda (e trágica) história de amor se desenrolou, e que o tempo e os homens, teimosamente, não permitiram que se apagasse da memória a Lenda da Serra da Cabreira.
Pedro Durães
 
 
Fotorreportagem:
 
 
 
 
 
 
 
 
O dia amanheceu feliz.
Queria subir aos montes,
Queria beber nas fontes,
Queria perder-me nos largos horizontes…
E a vida assim o quis!
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Nota: Todas as fotos (excepção da fotografia com a sinalética «Serra da Maçã») foram tiradas ao longo de um antigo caminho florestal e de um fantástico trilho de pé posto que embrenha-se no interior «secreto» da floresta da Costa dos Castanheiros. O percurso homologado é efectuado ao longo do monótono estradão florestal que contorna a montanha. Para quem não se encontrar familiarizado com a área em questão, é aconselhável seguirem o referido estradão… SORRY!  ;)
 
 
 

4 comentários:

teresa Pereira disse...

Olá Pedro!
Que belo texto ...esta serra é realmente um encanto para todos. Eu já por lá andei umas 3 vezes e cada regresso , é sempre cheio de emoção.
Agora que as coisas já começam a entrar numa normalidade com a minha saúde , a ver se nos encontramos por aí num desses magnificos trilhos. Vou combinar com os outros companheiros do Porto e já combinaremos...Ok?
Grande beijo e , como sempre , aquele abraço do tamanho do mundo.

Pedro Durães disse...

Olá Teresa,

- No presente mês de Novembro temos agendado o "PR4 Trilho do Rio", em Montalegre. Em principio o trilho será realizado no dia 17 de Novembro. Aliás, a julgar pelas fotografias que vi, andas-te lá perto, quando caminhas-te no Gerês, ao longo do "Trilho do Fojo da Portela da Fairra", localizado na aldeia do Outeiro, Montalegre. Sem dúvida, um belo trilho! Apesar da noite «mal dormida», captas-te bonitas fotografias.

Um Beijinho Montanheiro,
Pedro Durães

Alberto Pereira disse...

Boas!

Vejo aqui muita paixão pela Cabreira.
É sem dúvida uma serra muito interessante e acolhedora, cheia de locais e histórias encantadoras, tal como a que acabaste de contar.
Os meus parabéns.

Abraço,
Alberto P.

Pedro Durães disse...


- Olá Alberto,

- Sim, a Cabreira de facto fascina-me. Quantos mais recantos conheço, mais quero descobrir. Em breve irei efectuar uma "Cabreirada", tendo como guia o montanheiro Rui França (proprietário da Casa do Andarilho). Ele tem feito um trabalho notável na Cabreira (já abriu mais de meia dúzia de trilhos ao longo da serra, sobretudo antigos caminhos de pé posto, a maioria esquecidos e completamente cobertos por mato). Quem sabe se um dia mais tarde ainda nos encontramos para uma "Cabreirada"?

Um Abraço Montanheiro,
Pedro Durães