«Querido leitor, escrevo-te da Montanha, do sítio onde medram as raízes deste blogue»

sábado, 24 de novembro de 2012

Serra do Gerês- "Entre Gigantes"

Nota:
Fazendo minhas as palavras proferidas há muitos anos atrás pelo «nosso» Vítor Espadinha, recordar é viver! Apesar de não saber muito bem as razões da decisão de publicar este post, vivido, fotografado, e posteriormente escrito, a verdade é que não resisti a um impulso surgido não sei bem de onde… Fica o singelo relato de mais uma «aventura», vivida algures nas montanhas geresianas.


Gerês, 6 de Junho de 2010
 
Entre Gigantes
 
A aldeia barrosã de Pitões das Júnias, situada a 1132 metros de altitude, numa das zonas mais bonitas do Parque Nacional da Peneda-Gerês, é provavelmente o ponto de partida para alguns dos melhores trilhos de montanha no norte de Portugal.
Tínhamos planeado passar o fim-de-semana na aldeia, e aproveitar a oportunidade para explorar um pouco mais a área envolvente.
Percorrendo um caminho empedrado, que contorna o casario, passando de seguida pelos campos agrícolas, descemos até um belíssimo vale, recortado pelo ribeiro do Beredo e revestido por um pujante carvalhal. Para nosso espanto, enquanto descíamos em direcção ao vale, avistamos uma vara de javalis! Como é natural, no momento em que se aperceberam da nossa presença, desataram a correr que nem doidos, embrenhando-se rapidamente e ruidosamente no denso bosque.
Por esta altura o nevoeiro começava finalmente a levantar… o dia prometia!
 
Pormenor de um pequeno trecho do trilho, já na descida para o vale do ribeiro do Beredo

Já no vale, decidimos acompanhar a subida do pequeno ribeiro, percorrendo lentamente as suas margens musgosas, protegidos do sol pelas copas das árvores, desfrutando do momento. Ainda tivemos o prazer de observar algumas espécies endémicas da serra do Gerês, que nos iam surgindo no caminho. Foi o caso do Lirio-do-Gerês. De corpo esbelto, postura elegante, e possuidor de um lilás sedutor, é sem dúvida uma planta de uma beleza encantadora.
 
Haverá alguém que não fica rendido ao encanto do Lírio-do-Gerês?
 
Fim da subida do vale do ribeiro do Beredo, a partir daqui teríamos a montanha com toda a sua força bruta

Assim que chegamos a um pequeno colo (ponto mais baixo situado entre duas montanhas e que une dois vales, servindo de passagem), podemos finalmente contemplar o vale da ribeira dos Fornos e os imponentes Cornos de Fonte Fria. Localizados numa linha de cumeada, na raia luso-espanhola, os Cornos de Fonte Fria são um caótico amontoado de grandes blocos de granito, com formas invulgares e misteriosas. Um pouco mais acima do local onde nos encontrávamos teríamos apenas muita pedra solta e rocha, invariavelmente acompanhada por extensos mantos de urze e carqueja.
 
Fraga da Brazalite (canto superior esquerdo) e pico da Carvalhosa (canto superior direito)
 
Ainda equacionamos a subida ao pico de Fonte Fria, mas um repentino nevoeiro fez-nos mudar de ideias
 
Decidimos continuar, utilizando um carreiro que contorna a fraga da Brazalite. Durante o trajecto o nevoeiro começou a dissipar-se, e o pico da Carvalhosa ali tão perto…
 
Determinados, decidimos subir a um dos gigantes de granito (pico da Carvalhosa). Sem dúvida alguma, a árdua (e vertiginosa) subida valeu mesmo a pena. Avistamos uma imensa área recortada por montanhas que se sucedem umas atrás das outras, um reino maravilhosamente… selvagem! Enquanto ia contemplando o cenário, os meus ouvidos captaram um som estranho e arrepiante. Olhei para os meus amigos, como que a perguntar se eles teriam ouvido o mesmo que eu, até ao momento em que um deles disse: «Vocês ouviram? Era um uivo de um lobo.» Ficamos ainda mais incrédulos quando alguns segundos depois um novo e intenso uivo fez-se ouvir novamente… nem queríamos acreditar!
 
Vista a partir do cume, onde se pode avistar um reino maravilhosamente… selvagem!
 
Pitões das Júnias ali tão perto… e ao mesmo tempo tão longe
 
Ao fundo já é possível avistar terras galegas, e a albufeira de Salas em particular

 
Pausadamente, ainda a recuperar o fôlego da experiencia que tínhamos testemunhado, retomamos o trilho em direcção à aldeia, aproveitando as cores quentes do fim do dia para muita fotografia.
 

Vale da ribeira das Aveleiras ao fim de mais um dia de pura montanha
  
Pois é, já fui muito feliz… bem lá em cima!
(Foto de Mário Marinho)

Pedro Durães

 

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