«Querido leitor, escrevo-te da Montanha, do sítio onde medram as raízes deste blogue»

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Serra da Peneda- “Trilho do Glaciar e do Alto Vez”

06 de Abril

Depois da vertiginosa «aventura» para chegar ao local de início do trilho (aldeia de Porto Cova), pusemos rapidamente em marcha o plano para o dia. Esta seria a nossa primeira incursão na vertente norte da serra da Peneda (extremo noroeste do concelho de Arcos de Valdevez). Durante a viagem de carro havíamos ficado boquiabertos com a monumentalidade do complexo agro-silvo-pastoril das aldeias em redor. Um impressionante emaranhado de casas, socalcos, regadios, eiras, espigueiros, calçadas, cujo enquadramento paisagístico é simplesmente surreal, único em Portugal. Não é por acaso que esta região da serra da Peneda também é conhecida por «Nepal Português», em grande medida devido aos inúmeros socalcos esculpidos ao longo da escarpada encosta da montanha, mas ao contrário dos Nepaleses, aqui não se cultiva o chã, mas sim outras culturas, como o milho, a batata, o feijão, entre muitas outras. De pé posto, lá seguimos os ancestrais carreteiros empedrados pela montanha acima, ainda hoje usados pelas gentes da terra para acederem às brandas (pequenos aldeamentos localizados nas zonas mais altas da serra, ricas em pastagem e onde levam os animais a partir de meados de Abril, onde acabam por permanecer até ao final do Verão).
 
O monumental complexo agro-silvo-pastoril de Porto Cova (em primeiro plano) e Padrão (ao fundo)
 
Bonito pormenor de um pequeno trecho do trilho (pena o emplastro do canto inferior direito)
 
É a Primavera! Finalmente…
 
 Quando estávamos precisamente a entrar na bucólica e bem preservada Branda do Furado (onde acabamos por almoçar) tivemos direito a um “brinde”. Nada mais nada menos que o avistamento não de uma, mas de duas águias (eventualmente um casal) que decidiram pairar no ar por breves momentos, e enquanto uns limitaram-se a contemplar o majestoso voo da ave, outros sacavam rapidamente das máquinas fotográficas para tentar captar o registo de um verdadeiro ícone da fauna nacional.

Uma «janela» para um jovem e tumultuoso ribeiro
 
Em certas partes é necessário alguma atenção, um eventual descuido dará direito a uma queda de algumas centenas de metros
 
Alguém sabe distinguir que espécie de águia se trata? 

Saindo da Branda do Furado dirigimo-nos de seguida para um miradouro a partir do qual é possível observar com mais pormenor (no local encontra-se uma placa informativa) os vestígios da glaciação ocorrida há muitos milhares de anos. O contexto paisagístico é deslumbrante, e por toda a parte abundam os testemunhos da passagem de um antigo glaciar, desde o típico vale em forma de U, aos depósitos de enormes blocos graníticos arrastados pelo glaciar, as chamadas moreias.
 
  Panorâmica do Vale Glaciar da Serra da Peneda
 
 Vestígios da passagem de um antigo glaciar (moreias). Bem lá em cima, as fragas da Peneda 

Branda da Aveleira, com o Outeiro Alvo (1314m) a espreitar lá do alto 

Continuando a subir, acabamos por atingir o ponto mais alto do percurso, a sensivelmente 1100m (Outeiro Gordo). A partir daqui “ganhamos asas” e deleitamo-nos com uma vista sobre uma imensa área recortada por montanhas que se sucedem umas atrás das outras, com as terras do Alto Minho em primeiro plano, e para lá da raia, a Galiza!

Dá vontade de voar, não dá?
 
Este não estava para muita conversa… 
 
Pouco tempo depois alcançamos um interessante complexo de brandas, formado pela Branda do Outeiro Gordo, Branda da Costa do Salgueiro e Branda da Lapinheira. Devo destacar o bom estado de conservação deste complexo, onde é perfeitamente notório o uso e preservação do solo, quer dos pequenos campos de cultivo adjacentes às habitações, como também dos terrenos baldios, onde periodicamente é efectuada a chamada roça de matos, utilizada para evitar a proliferação do mato, como o tojo e a giesta, mantendo assim o terreno limpo e pronto a servir de pasto para os animais.
 
Complexo de brandas (Outeiro Gordo, Costa do Salgueiro e Lapinheira)
 
É perfeitamente notório o uso e preservação do solo através da roça de matos nos terrenos baldios da serra
 
Rumo à Branda de Castribô, onde a passagem por um bonito e denso carvalhal se adivinhava 

 A partir daqui inicia-se a descida final em direcção à aldeia de Porto Cova, seguindo sempre por carreteiros empedrados, embelezados pelos tradicionais muros de pedra sobreposta. Devo realçar ainda a passagem pela fantasmagórica Branda de Castribô, uma branda localizada num espaço de singular beleza, encontrando-se cercada por um bonito e denso carvalhal. Já quando estávamos quase a chegar à aldeia de Porto Cova cruzamo-nos com um grupo de montanheiros, ocasião aproveitada para uma curta e agradável conversa, onde não faltaram sugestões e algumas “dicas” para futuras incursões na vertente norte da serra da Peneda. Hum… Já se começam a fazer planos!
 
É sempre um prazer percorrer os ancestrais caminhos rurais, lajeados e circundados pelos típicos muros de pedra sobreposta 

 Cá está a malta na fantasmagórica Branda de Castribô

E eis que chegamos a Porto Cova, com as cores quentes do fim do dia a embelezarem (ainda mais) a envolvente ribeirinha do rio Cova 

Pedro Durães
 

4 comentários:

Pxaranha disse...

Bem fixe este trilho.
E quem sai da Srª da Guia, a capela que deves ter visto da branda do Furado, pode subir por um trilho paralelo ao Vez, com visita a uma ou outra branda completamente abandonadas, rumo à nascente do Vez.
Da nascente há tantas variantes para fazer que mais vale procurares no Wikiloc qual é a mais bonita.
E se te propuseres a fazer travessia por estes lados não vais dar o tempo por perdido!
Abraços.
X

Pedro Durães disse...

Olá Xavier,
- De facto, o trilho é lindíssimo. Também já andei a pesquisar um pouco e as variantes que encontrei são tantas que o mais difícil é mesmo escolher... Ainda bem! Da próxima incursão à Peneda talvez venha a optar pela encosta contrária (Rouças-Gorbelas-Fojo do Lobo-Lamas do Vez-Bosgalinhas-Junqueira). Há já algum tempo que ando para fazer essa variante. O cume da Peneda vai ter de esperar para mais tarde, quem sabe se numa eventual travessia...
Um Abraço Montanheiro,
Pedro Durães

Alberto Pereira disse...

Olá Pedro;

É incrível a diferença de tonalidades desde a minha passagem por esses lados em Novembro e agora! A "mãe" Natureza não pára!
Ainda este ano tenciono fazer de uma só assentada a Peneda e a Pedrada!
E vou precisar de ajuda ;) !

Um abraço;

Berto

Pedro Durães disse...

Olá Alberto,
- Hum... Peneda e Pedrada de uma só assentada é para malta um pouco marada! Vai dando noticias amigo, o desafio é grande e ainda por cima ainda não coloquei as botas em ambos os cumes... o bichinho já começa a morder!
Um Abraço Montanheiro,
Pedro Durães