«Querido leitor, escrevo-te da Montanha, do sítio onde medram as raízes deste blogue»

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Serra da Estrela- “Acampamento no Covão D’Ametade" (I Dia)

I Dia (15 de Junho): PR2 "Rota do Javali" + PR1 "Rota do Poço do Inferno"

Andei sempre à roda, à roda,

E sempre à roda de ti…


«(…) Alta, imensa, enigmática, a sua presença física é logo uma obsessão. Mas junta-se à perturbante realidade uma certeza ainda mais viva: a de todas as verdades locais emanarem dela. Há rios na Beira? Descem da Estrela. Há queijo na Beira? Faz-se na Estrela. Há roupa na Beira? Tece-se na Estrela. Há vento na Beira? Sopra-o a Estrela. Há energia eléctrica na Beira? Gera-se na Estrela. Tudo se cria nela, tudo mergulha as raízes no seu largo e materno seio. Ela comanda, bafeja, castiga e redime. Gelada e carrancuda, cresta o que nasce sem a sua bênção; quente e desanuviada, a vida à sua volta abrolha e floresce. (…) Não. Não se pode fugir ao magnetismo do íman que tudo atrai e que tudo dispõe. E é justo. Se alguma coisa de verdadeiramente sério e monumental possui a Beira, é justamente a serra. Portugal tem outras mais belas e agrestes- o Gerês, por exemplo. Outras com mais incorruptibilidade- o Marão, para não ir mais longe. Outras mais luxuriantes- como Monchique. Mas nenhuma se lhe compara na maneira larga como expande a respiração, no modo aberto como desdobra o manto. Em qualquer uma das suas rivais a emoção que se sente é sempre um espasmo. Um frémito rápido e agudo. Na Estrela, porém, é um demorado fruir de sensações, feitas de surpresas sucessivas. Há nela as três velhas dimensões necessárias a um tamanho: comprimento, largura e altura. O Marão é um seio que entumesceu num corpo; o Gerês é um espinhaço que se fendeu ao meio; Monchique um jardim suspenso. Mas a Estrela é uma expiração de pedra que o quis ser sem literatura. As irmãs são mais cenários do que realidade, ela é mais naturalidade do que artifício. Por isso apenas se lhe apreende a grandeza tocando-a, como o tamanho de Gulliver só se descobriu quando os anões lhe escalaram o arcabouço. A Borrageira e o Pé de Cabril, do Gerês, as fragas da Ermida e a Pena Suar, do Marão, vêem-se de muito longe, como bandeiras festivas nos mastros das romarias. A Estrela, essa, guarda secretamente os ímpetos, reflectindo-se ensimesmada e discreta no espelho das suas lagoas. Somente a quem a passeia, a quem a namora duma paixão presente e esforçada, abre o coração e os tesouros. Então, numa generosidade milionária, mostra tudo. As suas Penhas Douradas, refulgentes já no nome, os seus Cântaros rebeldes a qualquer aplanação, os seus vales por onde deslizaram colossos de gelo, nos brancos tempos do quaternário. Revela, sobretudo, recantos quase secretos de mulher. Fontes duma pureza original, cascatas em que a água é um arco-irís desfeito, e conchas de granito onde se pode beber a imagem. O tempo demorou-se na solidão e no silêncio das suas lombas, e pôde construir à vontade. Abrir ruas, esculpir estátuas, rasgar gargantas, e até deixar desenhado o próprio perfil na curva de raio infinito de cada recôncavo.
Perder-se por ela a cabo num dia de neve ou de sol, quando as fragas são fofas ou há flores entre o cervum, é das coisas inolvidáveis que podem acontecer a alguém. Para lá da certeza dum refúgio amplo e seguro, onde não chega a poeira da pequenez nem o ar corrompido da podridão, o peregrino esbarra a cada momento com a figuração do homem que desejaria ser, simples, livre e feliz. Um homem de pau e manta, a guardar um rebanho- criatura ainda impoluta do pecado original, para quem a vida não é nem suplício nem degradação, mas um contínuo reencontro com a natureza, no que ela tem de eternamente casto, exaltante e purificador.»
(Excerto retirado da obra “Portugal”, com o título “A Beira”, do poeta/escritor Miguel Torga)

 
Fotorreportagem:
Panorâmica sobre a Vila de Manteigas
 
Caminho florestal…
 
… que pouco tempo depois se transformou num fantástico trilho de pé posto
 
Se perguntarem o porquê de em quase todas as matas (onde é visível a acção do homem) existir uma forte predominância das manchas arbóreas de pinheiro, ou então carvalho, pela fotografia já têm a resposta a essa mesma pergunta
 
Ribeira de Leandres
Cascata do Poço do Inferno
 
Vale da Ribeira de Leandres
 
Casa típica na serra
Este pequeno trecho do trilho é fenomenal!
Lá está Manteigas, completamente “encravada” no meio das montanhas da Serra da Estrela
 
Uma mariola “Beirã”
 
Novo caminho florestal
Bosquete de bétulas
 
  Passagem por um antigo caminho rural, já perto do fim do percurso
 
Durante os próximos dias ficará concluída a fotorreportagem do segundo e último dia. Espero que entretanto tenham gostado das fotografias do primeiro dia…
Pedro Durães
 

2 comentários:

Alberto Pereira disse...

Espectacular Pedro!

São 'posts' como este que fazem com que o BotaPróMonte seja um dos melhores blogs de montanheiros que por aí andam!
Um bem haja e contínua porque a gente gosta e muito!

Abraço

Pedro Durães disse...

Olá Alberto,
- Antes de mais obrigado pelas tuas palavras, sei que são sinceras, o que para mim é muito importante. Simplesmente limitei-me a dar asas à liberdade, "saquei" uns trilhos na net, encontrei um local para acampar/pernoitar (Covão D'Ametade) e o resto já tu sabes... BotaPróMonte!
- Também escrevi um rascunho sobre o fim-de-semana, mas depois lembrei-me deste "velho" texto do Torga e decidi transcrever para o blogue. O tipo foi um montanheiro do caralho! O texto é simplesmente perfeito. Depois de o leres vais para a Estrela, chegas lá e dizes: «Ah! Ok, já percebi...»

Um Abraço Montanheiro,
Pedro Durães