«Querido leitor, escrevo-te da Montanha, do sítio onde medram as raízes deste blogue»

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

“Do Pedrinho à Pedrada”

1 de Setembro                      

A convite de um grande amigo montanheiro, regressei uma vez mais às serranias da Peneda/Soajo. Aliás, este acabou por ser um daqueles convites ao qual seria impensável dizer que não. De uma forma, ou de outra, tinha de estar presente. A ideia era um tanto ou quanto épica, «uma maloqueira», parafraseando o mentor desta caminhada. Basicamente, o objectivo consistia em atingir o cume da montanha mais alta da serra da Peneda (1374m) e da serra do Soajo (1416m).
Partindo da aldeia serrana da Gavieira, localizada num belíssimo vale, rasgado pelo Rio Grande e à sombra das Quelhas, uma imponente parede rochosa cravada numa das encostas da montanha, lá seguimos por um antigo carreteiro em direcção à Branda de Bosgalinhas, a primeira de três brandas que visitamos durante o dia.
 
Aldeia serrana da Gavieira. Bem lá em cima podemos ver a impressionante parede granítica das Quelhas
 
Antigo carreteiro que liga a povoação da Gavieira à Branda de Bosgalinhas
 
Montanhas da Peneda/Soajo
  
As brandas são pequenos povoados de altitude que se encontram ocupados apenas durante o Verão para apoio à actividade pastoril. A sua localização geográfica deve-se acima de tudo à relativa proximidade com as melhores zonas de pasto da montanha. Após uma rápida passagem pela Branda de Bosgalinhas continuamos o caminho em direcção ao planalto de Lamas do Vez. Este era também um momento pelo qual ansiava há alguns anos a esta parte. E a verdade é que as expectativas não saíram defraudadas! Decididamente, trata-se de um lugar único e especial. Uma imensa manta verde estende-se diante de nós ao longo de vários quilómetros, delimitada de um lado e do outro pelos cumes da Pedrada (Soajo) e Pedrinho (Peneda). É também aqui, neste lugar mítico e distante que nasce o Rio Vez.
 
Branda de Bosgalinhas. Não, este não é o calhau do Conho...

Planalto de Lamas do Vez
 
Estão a ver aqueles muros lá ao fundo? Pois é, desta vez houve alguém que se esqueceu de que os muros são para se manter de pé, com cada pedra no seu devido lugar… 

Sem que para isso tenhamos despendido um grande esforço físico, num curto espaço de tempo estávamos já no cume do Pedrinho, o ponto mais alto da serra da Peneda, com aproximadamente 1374 metros de altitude. Era a altura ideal para descansar um pouco, comer qualquer coisa, e, claro, apreciar as vistas!
 
Chegada ao cume do Pedrinho

Claro está com direito à foto da praxe
(Foto gentilmente cedida pelo amigo Xavier)

Vista para as terras do Alto Minho a partir do cume do Pedrinho 

Cumprida com êxito a primeira trepadela do dia, era chegado o momento de ganhar novo fôlego para o desafio seguinte. E em relação a esse não havia a menor dúvida, ele estava ali mesmo diante de nós, altivo, imenso… toca a subir à Pedrada! E subimos, subimos, subimos…
 
 Toca a ganhar fôlego para a subida à Pedrada

  Abrigo na serra com vista para aquele que penso ser o fojo do lobo de Sistelo
 
Finalmente avistamos o marco geodésico da Pedrada, sim, refiro-me aquele pedaço de cimento que normalmente encontramos nos pontos mais elevados da montanha e que indicam a altitude do local, ou na falta de uma placa informativa há sempre um chico-esperto que fornece a informação aos visitantes através de uma borrifadela oriunda de uma qualquer lata de spray, mas o que eu nunca imaginei é que encontraria a figura do Ché nesse preciso local! Divagações à parte, o local é sem dúvida alguma merecedor de cada gota de suor libertada na longa e penosa subida.
Do cume da Pedrada descemos até ao fojo do lobo. À semelhança de muitos outros fojos que se encontram dispersos (a maioria em ruínas) nesta região montanhosa e bravia, a sua construção acaba por enquadrar-se tão bem na envolvente paisagística que mais parece ter brotado do próprio solo.
 
A malta do “inferno da Pedrada”
(Foto gentilmente cedida pelo amigo Alberto)
 
Cá está o “Ché da Pedrada"
 
Descida em direcção ao fojo do lobo com o planalto de Lamas do Vez a dominar a paisagem
 
Vista a partir do interior do fojo do lobo para as montanhas da serra do Gerês/Xurés 

Lobos, esses não os vimos, mas um simpático pastor residente na Branda de Gorbelas contou-nos algumas histórias sobre eles. Os lobos, esses seres míticos que pontilham o imaginário não só daqueles que obtêm da serra o seu sustento, mas também dos que tiram dela verdadeiro alimento, não para o corpo, é claro, mas para a alma. O fim do dia aproximava-se, as encostas da montanha iam lentamente ficando cobertas pelo manto negro de um crepúsculo anunciado, e Junqueira ali estava, a última branda a ser visitada, melhor ainda, a ser simplesmente contemplada. O dia já ia longo, as pernas já se ressentiam, o espirito estava, enfim... saciado.
 
Branda de Gorbelas
 
Lentamente, o fim do dia aproximava-se... 

Aldeia de Tibo coberta pelo manto negro de um crepúsculo anunciado 

Pedro Durães
 

Nota: Gostaria de deixar uma palavra de gratidão ao amigo Alberto pelo convite, e também a todos os companheiros/as que participaram nesta memorável caminhada por esses montes fora. Que venha a próxima!
 

4 comentários:

Órion disse...

Bela descrição da saudável "maloqueira".

Abraços

Pedro Durães disse...


Olá malta,

- Sem a partilha dos momentos vividos com verdadeiros amantes da natureza (e da montanha em particular), de certeza que o texto não seria o mesmo... faltar-lhe-ia alma.

Um Abraço Montanheiro,
Pedro Durães

Alberto Pereira disse...

Olá amigo,

Com este belo texto acompanhado de belas imagens, é muito fácil deixar-me transportar e reviver os belos momentos vivenciados nessa 'épica' caminhada .
Sempre fui da opinião que as 'maluqueiras' existem para serem vividas!
E se essas extravagâncias forem partilhadas com pessoas que 'falam a mesma linguagem', então estamos perante uma 'maluqueira perfeita'!

Só não vimos foi as 'cobras foguete'! :)

Obrigado por teres aceite o desafio!

Um abraço montanheiro,

Alberto

Pedro Durães disse...


Olá Alberto,

- Acredita que daqui a muitos anos irei lembrar-me desta saudável "maloqueira", como diz o Jorge. O momento em que o Xavier tirou mal as medidas ao muro, a trepadela rumo ao Pedrinho, a longa e penosa subida ao "inferno" da Pedrada e a conversa com o simpático pastor de Gorbelas, um dos poucos que já viu as esquivas "cobras foguete" ficarão para sempre gravados na memória, não apenas minha, mas concerteza do restante pessoal montanheiro.
- Acima de tudo ficará na memória futura (mais) uma bela jornada por esses montes fora amigo.

Um Abraço Montanheiro,
Pedro Durães