«Querido leitor, escrevo-te da Montanha, do sítio onde medram as raízes deste blogue»

terça-feira, 1 de outubro de 2013

“Por Terras do Barroso II”

Dia II (14 de Setembro)
 
Depois de uma noite (muito) mal dormida (digo isto supondo que alguém chegou mesmo a dormir), às 8h30m da manhã já estava a malta a sair da tenda, do carro, do meio do monte, enfim, do local onde encontraram uma enxerga, e lá se levantaram, bem, quase todos, já que um ou outro para ser acordado teve mesmo que receber uns “amigáveis” pontapés no rabo! O que interessa é que a malta estava toda pronta e animada (aqui também suponho que a animação tenha vindo “destilada” da noite anterior, se é que me faço entender…) para mais uma caminhada por esse Barroso fora.
A ideia para o dia consistia em efectuar um percurso pela serra do Barroso, mais concretamente na vertente voltada para a Albufeira do Alto Rabagão, desfrutando assim de panorâmicas fabulosas não apenas sobre o lençol de água da albufeira, como também de todo o imenso planalto barrosão.
Iniciámos esta nossa incursão a partir da aldeia de Vilarinho de Negrões, localizada numa das margens da albufeira, cuja construção da barragem (1958-65) fez com que o casario da aldeia e os campos agrícolas adjacentes ficassem quase completamente cercados pela inevitável subida das águas, transformando num curto espaço de tempo Vilarinho de Negrões numa peculiar… península!
Percorrendo os ancestrais caminhos de pastoreio, que a pouco e pouco vão-se perdendo irremediavelmente com o declínio e abandono do pastoreio, lá subimos serra acima, parando pontualmente não apenas para descansar, mas acima de tudo para apreciarmos as vistas sobre o espelho de água proporcionado pela albufeira. Do topo da montanha é que temos a verdadeira noção de toda a imensidão daquele descomunal lençol de água. Impressionante.
 
Mal tinhamos acabado de dar os primeiros passos e já as vistas sobre a albufeira e as montanhas circundantes captavam toda atenção

(Foto gentilmente cedida pelo amigo H. Miranda)
À medida que ganhava-mos altitude o lençol de água da Albufeira do Alto Rabagão revelava toda a sua imensidão

Lá ao fundo encontra-se a península de Vilarinho de Negrões (local de início da caminhada)

(Foto gentilmente cedida pelo amigo H. Miranda)
Panorâmica da Albufeira do Alto Rabagão a partir do Alto do Serrado
 

Transposta a cumeada da montanha entramos de seguida numa zona de planalto dominada por extensas manchas de pinhal, apenas recortada por alguns viçosos lameiros, acrescentando deste modo um inegável valor estético à paisagem. A presença dos lameiros era também um indício de que já estávamos próximos da aldeia de Lamachã, o nosso próximo ponto de passagem. Enquanto caminhávamos pelas ruelas da aldeia conversamos com alguns locais e deparamo-nos com umas alminhas que, curiosamente (ou talvez não), pediam dinheiro aos de “cá”, como forma de apreço para com os de “lá”. Esta religião católica é mesmo do caraças! Quanto mais andamos, mais vemos amigos… Bem, vamos lá ao que realmente interessa. Saímos da aldeia pelos já habituais caminhos rurais, utilizados pelas populações locais para acederam aos campos agrícolas e lameiros. Uma das características deste tipo de caminho são os incontornáveis muros de pedra sobreposta, que para além de serem úteis na delimitação dos campos, foi também uma forma que estas gentes encontraram para retirar as pedras do terreno, de forma a torná-los aráveis, que é como quem diz: numa só cajadada, mataram-se dois coelhos! Se os homens e mulheres de hoje tivessem metade da “fibra” desta gente, certamente que esta nesga de terra debruada por mar seria um lugar bem melhor.

Transposta a cumeada da montanha entramos numa zona de pinhal, recortada por vários caminhos florestais
 
(Foto gentilmente cedida pelo amigo H. Miranda)
“Não passes além viajante cristão, sem dar uma esmola e uma oração, às benditas almas que penando estão”
 
Lameiros delimitados pelos tradicionais muros de pedra sobreposta nas imediações da aldeia de Lamachã
 
Continuando a caminhar pelo labirinto de caminhos que envolve os lameiros, pouco tempo depois entramos numa nova mancha florestal (novamente pinhal), também ela rasgada por um sem número de estradões. Tantos caminhos havia que a melhor opcção foi mesmo sair de estrada, enfim, nada a que esta malta já não esteja habituada. Encurtando aqui, alongando acolá, lá continuamos a subir a serra rumo ao marco geodésico de Domingos(1142m). E o que é que nós encontramos no cume da montanha? Claro que só podia ser mais uma rudimentar capelita (haverá algum cume de alguma montanha em Portugal que a não tenha?), mas o que realmente importa aqui salientar são as incríveis vistas que se obtêm sobre a região do Barroso… absolutamente fenomenais! Só é mesmo pena a existência de uma linha de postes de média/alta tensão muito perto do local, mas a Albufeira do Alto Rabagão não está lá em baixo apenas com o intuito de armazenar água, sabemos que é necessário “sacar” a energia produzida...
  
Andar “fora de estrada” também tem o seu encanto, pois neste caso em particular permitiu a passagem por este belo lameiro

Apesar dos pinhais não serem de todo o mais belo bosque, este até tem o seu encanto

Albufeira do Alto Rabagão vista a partir do marco geodésico de Domingos (1142m). Em primeiro plano vê-se a aldeia barrosã de Negrões 

 
Enquanto descíamos a encosta da montanha íamos ponderando qual a melhor opção a tomar em relação ao restante caminho que ainda nos faltava percorrer. Aliás, para dizer a verdade, tinha delineado um plano que se estendia apenas até à subida ao marco geodésico de Domingos, a partir daí seria puro improviso. «Será que tomamos aquele caminho já ali?» / «Ou não será melhor o outro, lá ao fundo?» / «E que tal se a malta apanhasse a estrada?» De facto, opções era coisa que não faltava, mas todas elas caíram por terra quando alguém com um espírito mais “aventureiro” teceu o seguinte comentário: «E se fôssemos até à margem da albufeira? Talvez seja possível caminhar ao longo da margem até à aldeia…» Uns concordaram de imediato, outros torceram o nariz, e lá acabamos nós por ir ao encontro da albufeira, caminhando serenamente ao longo da marginal, ouvindo apenas o som embalador provocado pela ondulação e pelo rebentamento das águas do Rabagão sobre a penedia barrosã.

Com alguma sorte acabamos por encontrar um trilho de pé posto que conduziu-nos até à margem da albufeira

Quem é que diria que da montanha desceríamos até ao “mar”?

(Foto gentilmente cedida pelo amigo H. Miranda)
Se soubéssemos de antemão que iríamos percorrer a margem da albufeira, o banho era garantido
 
«(…) Não. Não se pode fugir ao magnetismo do íman que tudo atrai e que tudo dispõe.» A foto e o texto referem-se à serra do Larouco (3ª montanha mais alta de Portugal continental, com 1525 metros de altitude)

Forno do Povo de Negrões

Adeus Vilarinho de Negrões, adeus Barroso! Ou será… até à próxima Barroso!

Pedro Durães
 
 
Nota: O percurso efectuado teve como ponto de referência o PR5 "Trilho do Rabagão". No entanto, devo salientar que foram introduzidas várias alterações ao traçado original, entre elas a descida até às águas da albufeira, ligando deste modo a aldeia de Negrões à vizinha Vilarinho de Negrões. Esta opção fez com que o percurso se tornasse circular, o que não acontece em relação ao PR5 “Trilho do Rabagão”.




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