«Querido leitor, escrevo-te da Montanha, do sítio onde medram as raízes deste blogue»

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

"Nos Contrafortes da Serra D'Arga"

29 de Dezembro

Há coisas assim… se 2013 começou com uma agradável e surpreendente caminhada pela Serra D’Arga, porque não terminar o ano da mesma forma? E se assim pensei, melhor o fiz. Bem, na verdade, fizemos!
Tendo como companhia verdadeiros montanheiros (pessoas que para além de praticarem actividades relacionadas com o montanhismo, estabelecem, por elas próprias, uma pura e desprovida ligação afectiva para com a montanha), lá nos dirigimos uma vez mais ao encontro desta enigmática serra minhota. Aquando da última caminhada fiquei verdadeiramente surpreendido por encontrar em pleno coração do Minho este desconcertante amontoado de pedra e rocha. Aqui, deparamo-nos com um Minho diferente daquele a que estamos normalmente habituados: um Minho com menos milho, menos couves, menos erva, menos videiras… Bem, o que quero simplesmente dizer é que encontramos um Minho menos… verde. Ao invés, pisamos terra nua, e à medida que vamos caminhando deparamo-nos com uma paisagem cada vez mais cinzenta, cada vez mais... ossuda. O caminho faz-se através de imemoráveis carreiros lajeados que a custo lá vão contornando as íngrimes e áridas encostas da montanha. Enquanto que os conterrâneos lavram terra fértil e irrigada, os de Arga levam os carros de bois serra acima ao encontro das chãs, por ventura o genuíno e talvez único ouro desta humilde gente. Lá, os animais obtêm finalmente o merecido repasto, e em certos locais, como se por capricho de forças que nos escapam, um esplendoroso manto verde irrompe sobre a dura e áspera penedia, e a água, fria e pachorrenta, lá vai abrindo caminho ao longo das turfeiras e charnecas do planalto serrano.
A quentura típica das coloridas e festivas aldeias minhotas esfuma-se perante pequenas e toscas habitações de granito. Aqui, o minhoto não é pequeno nem castiço. Altivo, veste capa de burel e em vez de uma estridente concertina maneja um tosco cajado de pau. Nesta serra, encontramos um Minho que não o é, afinal. Não será esta terra e esta gente uma outra face de um Minho que até hoje não chegou até nós? Talvez...
Pedro Durães
  
Foto-Reportagem:
 
Espigueiro, também chamado de canastro 

Ao fundo, no lado direito da foto, situa-se o lugarejo de Gandra. E no lado esquerdo ergue-se a colina do Cabeço do Meio Dia (550m) 

Formações geomorfológicas características da Serra D’Arga
 
É precisamente neste planalto amplo e lamacento (Chã de S. João) onde nasce o Rio Âncora. No lado esquerdo da foto podemos ver o curso de água da Fonte da Urze, uma das várias linhas de água que dão corpo e alma ao mítico rio minhoto
 
E aqui está o braço mais comprido do Rio Âncora: o Regueiro da Póvoa, cuja nascente localiza-se no sopé do Alto do Espinheiro

Vista a partir do cume do Alto do Espinheiro (825m), o ponto mais alto da Serra D’Arga. Ao fundo podemos ver a envolvente do santuário da Senhora do Minho. Em baixo, uma chã emerge sobre a dura e áspera penedia
Derivado às chuvas dos últimos dias os caminhos transformaram-se em autênticos ribeiros, escorrendo água por tudo quanto é lugar 

Mais um local emblemático da Serra D’Arga: a Porta do Lobo. Reza a lenda que era precisamente neste local que os lobos costumavam descer em direcção aos lugarejos de Agra 

E passada a referida porta vocês por acaso já repararam quem lá está para nos dar as boas vindas? Reparem bem no calhau localizado no canto superior direito da foto
Por vezes até chego arrepiar-me só de imaginar esta gente a subir com os carros de bois serra acima. Foda-se, vida difícil esta…
 
Profundezas da Serra D’Arga (Vale do Regato da Fraga) 

Moinhos do Covão
 
 Também aqui (ainda) há pastores 

Mais um belo espigueiro/canastro. Ao fundo ergue-se imponente e altiva a ossuda Serra D’Arga
 
Um dos raros bosques que encontramos ao longo do dia. No entanto devo salientar o riquíssimo valor ambiental e ecológico destes pequenos bosques, já que o coberto florestal é composto maioritariamente por seculares carvalhos, sobreiros e azevinhos
 
E a serra ia ficando para trás à medida que nos aproximávamos dos pequenos lugarejos localizados nas vertentes mais abrigadas e irrigadas da montanha
 
 Leito ribeirinho do Regato da Fraga
 
  Infelizmente, durante a caminhada fomos informados pela população local de que a mítica ponte do Pontão do Lobo acabou por cair derivado às intensas chuvas que ocorreram no final de 2013. Será que esta imagem servirá apenas para recordar um tempo e um local aparentemente condenado ao esquecimento? Será que esta peculiar obra de engenharia serrana voltará uma vez mais a unir as duas margens do Regato da Fraga?

 
Complexo de moinhos localizado próximo da aldeia de Gandra 
Sem dúvida alguma mais um belo recanto na igualmente bela Serra D’Arga

Fonte da Salgueirinha


(Foto gentilmente cedida pelo amigo Alberto Pereira)
E aqui está a “tropa” do dia. E foi assim que o ano de 2013 terminou, na companhia de verdadeiros amigos. Bem, só me apraz dizer: que venha a próxima! É que 2014 já está aí... 

Nota: O percurso efectuado teve como referência o PR4 "Trilho da Chã Grande". No entanto devo referir que foram efectuadas algumas alterações em relação ao traçado original, entre elas a subida ao Alto do Espinheiro (825m).


4 comentários:

teresa Pereira disse...

Viva Pedro!
Antes de mais . um feliz ano e a ver se é desta que voltaremos a caminhar juntos.
Fico muito triste com esta noticia da caída do pontão do Lobo,na serra D'Arga. Quem o conheceu,só tem de lamentar pois é um dos locais mais interessantes desse desvio do trilho do cabeço do Meio Dia. Esperemos que as autoridades locais saibam reconhecer a importância dessa obra e a reponham no local, que em boa verdade se diga, não estava nada bem tratado.
Vamos acreditar que vão olhar para lá com olhos de ver e um destes dias nos cruzamos todos por ali e festejar a reposiçao do Pontão do Lobo!
Já agora , uma pequena rectificação...
Não é o espigueira que tambem se chama canastro...ao canastro é que nós por cá , passamos a chamar de espigueiro..mas o rela nome é mesmo canastro ou celeiro.
Um destes dias falaremos sobre este tema...
Beijinhos Pedro...até breve!
Teresa Pereira

Pedro Durães disse...


Olá Teresa,

- Antes de mais, obrigado pela tua visita aqui ao meu humilde "cantinho". Vamos lá ver se este ano voltaremos a caminhar juntos novamente... é que para mim este ano vai ser um pouco mais curto em termos de caminhadas, mas é por um bom motivo :)
- Espero bem que o mitíco Pontão do Lobo volte uma vez mais a unir as duas margens do Regato da Fraga, o local e as gentes de Arga merecem. Agora só não sei é se haverá vontade...

Beijinhos,
Pedro Durães

Alberto Pereira disse...

Olá montanheiro;

Foi de facto uma maravilhosa maneira de terminar o ano no que diz respeito a caminhadas.
Um dia e uma caminhada que foi ao encontro do que mais gosto em tudo isto: tranquilidade, boa disposição, pura partilha de conhecimento e experiências e uma companhia do melhor.
Vale mesmo a pena quanto tudo se conjuga para que no fim do dia possamos dizer: muito bom, gostei!
E depois esta serra D' Arga que nunca deixa de nos surpreender. Serra cheia de histórias ancestrais que se sentem a cada passo dado.
Parabéns pela belíssima descrição, muito boa mesmo, e mais uma vez obrigado pela excelente e descomprometida companhia!

Abraço montanheiro,

Alberto

Pedro Durães disse...


Amigo Alberto e Mónica,

- Foi para mim um enorme prazer partilhar estes momentos vividos em comunhão com a natureza na companhia de vocês os dois. De facto, a tranquilidade, a boa disposição e a mútua partilha de conhecimentos são também um dos principais factores que me levam a caminhar na montanha, ou não fosse ela um (último) reduto de silêncio... e paz!
- Obrigado por tudo amigos.

Um Abraço Montanheiro,
Pedro Durães