«Querido leitor, escrevo-te da Montanha, do sítio onde medram as raízes deste blogue»

sábado, 25 de janeiro de 2014

"Travessia no Barroso I"

Dia I (S. Fins - Penedones)

18 de Janeiro
Depois de vários dias de céus encobertos, uma ténue possibilidade de uma ligeira melhoria em relação ao estado do tempo levou-me a pôr em marcha um plano que ansiava há muito puder concretizar: uma travessia pela região do Barroso.
Sabia que a partir do momento em que colocasse as botas no caminho estaria a desobedecer a uma regra fundamental nas saídas para a montanha: ia sozinho. É claro que tinha informado algumas pessoas sobre o meu plano, mas mesmo assim tinha decidido arriscar. Queria muito caminhar na montanha, conhecer de perto este pedaço do Barroso, enfim, descansar um pouco de todo o rebuliço citadino e aproveitar para respirar bem fundo.
Pretendia também conhecer a denominada GR117 Via Romana XVII, uma das várias vias romanas que outrora ligaram este pequeno território ao colossal Império Romano. Curiosamente, e tal como a conhecida Geira (Via Romana XVIII), também esta antiga via ligava a actual cidade de Braga (Bracara Augusta), à cidade espanhola de Astorga (Asturica Augusta), num trajecto com aproximadamente 400Km de extensão!
Como é natural, hoje em dia são poucos os vestígios que podemos encontrar da antiga via romana. Estradas, e acima de tudo a construção de barragens (o traçado original seguia ao longo da bacia hidrográfica do Rio Rabagão, encontrando-se parcialmente submerso pelas albufeiras de Venda Nova e Alto Rabagão) fizeram com que este importante legado histórico e cultural se tenha desvanecido na memória colectiva deste povo. Apesar de tudo, nos dias de hoje ainda é possível encontrar vestígios da antiga via: marcos miliários, pequenas pontes e pontões, bem como alguns trechos relativamente bem preservados de calçada romana, se bem que para dizer a verdade tenha havido alturas em que nem cheguei a dar conta de estar a caminhar na referida calçada, é que com as intensas chuvas das últimas semanas, os caminhos encontravam-se transformados em autênticos pântanos, com água e lama a escorrer por todos os lados! Mesmo assim, foi com relativa facilidade que fui progredindo ao longo do serpenteado da via e onde pude constactar que apesar da sofrível usura do tempo, esta importante via continua ainda hoje a servir as gentes e gado de pequenas aldeias barrosãs.
Caminhar na Via Romana XVII é também uma oportunidade para observar de perto os usos e costumes e sentir a boa hospitalidade das suas gentes. Mais do que uma momentânea janela para o passado, a Via Romana XVII é uma porta que se abre de forma escancarada e confiada. E ao forasteiro mas não se lhe exige que, entrando, seja digno de merecer a magnificência dessa dádiva.
 
Pedro Durães


Foto-Reportagem:

Marco miliário na aldeia de Currais
 
Com os caminhos transformados em autênticos pântanos, por vezes nem chegava aperceber-me de estar a caminhar na antiga calçada romana
 
Uma rápida vista de olhos para a vizinha Serra da Cabreira, em particular para o seu mais alto e imponente cume: o Talefe
 
Panorâmica sobre a aldeia e a área envolvente de Vila da Ponte
 
Possivelmente a origem do nome da aldeia de Vila da Ponte deve-se precisamente a esta ponte em particular, que aparentemente não tem qualquer relação directa com a Via Romana XVII
 
Espelho de água no rio Rabagão visto a partir do tabuleiro da ponte
 
Paredão da barragem do Alto Rabagão
 
Albufeira do Alto Rabagão (Pisões)
 
Mistérios da Serra do Barroso
 
Vista para as aldeias de Viade (de Baixo e de Cima)
 
De vez em quando o sol lá ia aparecendo e as fotografias ganhavam luz e cor
 
Marco miliário na praça central de Viade de Baixo. Este antigo marco foi encontrado na albufeira do Alto Rabagão (local por onde a via original passava) e posteriormente colocado neste local
 
Curiosa imagem de S. Tomé incrustada numa parede de uma casa
 
Já repararam no meu “vizinho do lado”?
 
Cornos das Alturas do Barroso. Um dos símbolos naturais da região do Barroso
 
Os caminhos murados e cobertos por uma densa camada de musgo foram uma constante ao longo do dia
 
Gado pastando nos lameiros
 
E aqui está um bom exemplo da hospitalidade das gentes barrosãs: Assim que cheguei à "Casa do Colmador", para além de uma arrumação e limpeza impecável, o sistema de aquecimento havia sido ligado antecipadamente. Com a roupa completamente encharcada em suor e os pés molhados, já devem ter percebido como eu me senti ao entrar na casa. Ah! Escusado será dizer que a porta não estava trancada: «Entre quem é!»
 
Como infelizmente não tive ninguém para me acompanhar nesta minha incursão pelo Barroso, o serão teve que ser passado em frente da lareira, tendo como companhia a prosa de Steinbeck e a poesia de Florbela Espanca
 

 
O texto e as fotos do segundo e último dia desta “aventura” por terras do Barroso estarão concluídos brevemente…
 

 

2 comentários:

Alberto Pereira disse...

Olá camarada Pedro,

Espectacular esta tua aventura!
Pena mesmo que não tenhas tido companhia, mas com certeza o momento foi muito mais introspectivo e ao mesmo tempo enriquecedor!
Fico ansioso a aguardar pelo relato da 2.ª parte.
Grande abraço,

Alberto

Pedro Durães disse...

Olá amigo Alberto,

- Uma vez mais muito obrigado pelas tuas sempre simpáticas e sinceras palavras. Sim, apesar de infelizmente não ter tido companhia nesta minha incursão pelo Barroso, a verdade é que a experiência acabou por tornar-se muito enriquecedora em termos de auto-conhecimento. Acabamos por reconhecer algumas virtudes, mas também alguns defeitos, que o simples facto de caminhar sozinho permite (re)descobrir. Seja como for, não há nada melhor (e seguro) que caminhar na companhia de pessoas que partilham o mesmo fascínio pela vida ao ar livre.
- Mas não prometo que não voltarei a fazer uma "maloqueira" destas ;)

Um Abraço Montanheiro,
Pedro Durães