«Querido leitor, escrevo-te da Montanha, do sítio onde medram as raízes deste blogue»

sábado, 1 de fevereiro de 2014

“Travessia no Barroso II”

Dia II (Penedones - Montalegre)

19 de Janeiro

Às 7h o despertador toca, saio da cama, visto um casaco, abro a porta e saio para dar uma pequena volta. Enquanto caminho, faço curtas paragens para olhar em redor. A pequena aldeia de Penedones e as montanhas que se espraiam por detrás do aldeamento encontram-se cobertas por um admirável e imaculado mundo branco. Tinha caído um forte nevão durante a noite e madrugada. Havia sido informado sobre a possibilidade de queda de neve acima dos 1000 metros, mas não estava de todo à espera que a cota baixasse e a neve caísse com esta intensidade abaixo dos 800m.
Entro em casa, tomo o pequeno-almoço e preparo a mochila. O nevão poderia por em causa o plano que tinha delineado para este segundo e último dia desta "aventura" pelo Barroso. Teria que ser (ainda) mais cauteloso e evitar correr riscos desnecessários. Não caminhar por trilhos em más condições, contornar as vertentes mais altas e íngremes da montanha (onde certamente a acumulação de neve seria maior) e evitar a travessia de pequenas corgas e ribeiros seriam factores determinantes para concluir a jornada em total segurança.
Saio da aldeia de Penedones e sigo por um antigo caminho rural em direcção à vizinha Castanheira da Chã. Num ápice estou já a percorrer as ruelas da fantasmagórica aldeia, onde, como é natural, sou o único que por ali anda, embora algumas pessoas tenham já se levantado, a julgar pelo fumo que lentamente vejo sair das chaminés de algumas casas. À medida que ganho altitude vai-se tornando cada vez mais constante e audível o “Crac, Crac” dos meus passos na neve gelada.  Pisar aquela brancura imaculada, virginal, foi para mim um sentimento de enorme alegria e êxtase.  Um pouco antes de chegar ao colo (ponto mais baixo situado entre duas montanhas) do Boqueiro do Avelar o vento começa a soprar com bastante intensidade, arrastando consigo alguma neve. Decido abrigar-me provisoriamente no interior de um pinhal, onde, e vá-se lá saber porquê, aproveito a pausa para erguer um pequeno boneco de neve J
Determinado, prossigo a marcha em direcção ao Fojo do Lobo do Avelar e “conquisto” o cume da montanha onde há muitos anos atrás o povo da região erigiu uma pequena e rudimentar capela em homenagem a Nossa Senhora das Treburas. O local é também um dos mais conhecidos e belos miradouros naturais da região do Barroso.
À medida que me aproximo do fim os meus passos tornam-se cada vez mais demorados, mas não sinto cansaço. Visito o já conhecido parque de lazer da Corujeira e relembro anteriores visitas estivais onde, invariavelmente, acabava por dormitar uma curta sesta deitado na erva verde e fresca. A sensação de o ver branco como neste dia foi… estranha, mas ao mesmo tempo maravilhosa! Do miradouro homónimo contemplei belas e brancas vistas sobre a pequena vila de Montalegre e o imenso vale do Alto Cávado. O vento começa novamente a soprar forte e vejo uma ameaçadora massa de nuvens aproximar-se da vila. Dentro em breve voltaria a nevar. Desço e procuro abrigo nas quentes e acolhedoras paredes de uma casa barrosã.

Pedro Durães


Foto-Reportagem:

Aldeia de Penedones às primeiras horas de um novo dia
 
 Lameiros cobertos por um admirável e imaculado mundo branco
 
 Serra do Barroso “pintada de branco”
 
Apesar de não ser bem visível na foto, no canto superior direito encontra-se o casario da aldeia de Castanheira da Chã
 
 A partir daqui seria só “Crac, Crac…” J
 
Carvalhos cobertos por um majestoso manto branco
 
Zoom ao colo do Boqueiro do Avelar
 
   Uma efémera recordação da minha passagem por este local
 
Fojo do Lobo do Avelar
 
“Janela” para o vale do Alto Cávado
 
Carvalhal do Avelar
 
 Capela de Nossa Senhora das Treburas
 
 E aqui está um dos mais belos miradouros da região do Barroso
 
Parque de lazer da Corujeira
 
 «Let it snow, let it snow, let it snow»
 
 Zoom à pequena urbe barrosã
 
O belo e imenso vale do Alto Cávado
 

 

6 comentários:

Órion disse...

Olá Pedro

Belíssima caminhada invernal. Devido a este tempo incerto apanhar uma "aberta" para caminhar é um achado.

Abraços

Lírio disse...

...e isto é o que se chama uma aventura "deliciosa"!!!!
Gente dura, os montanheiros:)

Um grande abraço

Lírio

Pedro Durães disse...

Olá amigo Órion,

- De facto, tive mesmo muita sorte em apanhar esta "janela de bom tempo". Tanto no primeiro como no segundo dia, o tempo esteve óptimo para caminhar. Apesar das baixas temperaturas, a verdade é que não choveu nos dois dias, e o sol de quando em vez lá aparecia para dar um ar da sua graça :) 
- E o nevão? Upa! Upa! Foi mesmo muito fixe ouvir o ”Crac, Crac” dos meus passos na neve gelada. Uma bela forma de me despedir (mas não por muito tempo) das “lides montanheiras”.

Um Abraço,
Pedro Durães

Pedro Durães disse...

Olá amiga Lírio,

- "Deliciosa"... Ora aí está uma bela palavra para descrever esta minha incursão pelo Barroso. E a verdade é que ficaram outras histórias por contar, tais como: a travessia sobre o leito do Rio Rabagão, onde cheguei a estar literalmente com as calças na mão; a dona Maria Deolinda que teve a gentileza de me acompanhar (sozinha) ao longo da serra para certificar-se de que eu não me perdia; a chegada à vila de Montalegre onde por pura coincidência encontrei familiares que já não via há muito tempo e que me "resgataram" para o interior de um restaurante local, onde tive que contar "tim tim por tim tim" esta minha travessia pelo Barroso... enfim, uma «aventura deliciosa» amiga!

Um Abraço,
Pedro Durães

Alberto Pereira disse...

E cá está!

Eu tinha razão ao estar ansioso pelo relato da 2.ª parte da 'aventura'!
Espectacular camarada Pedro! :)
E como diz o Pélé: 'Deus dá a quem merece!'

Grande abraço!

Pedro Durães disse...


Olá Alberto,

- Tive sorte amigo... tive mesmo muita sorte...

Um Abraço Montanheiro,
Pedro Durães