«Querido leitor, escrevo-te da Montanha, do sítio onde medram as raízes deste blogue»

sexta-feira, 13 de junho de 2014

“Overdose Civilizacional" (Texto) + "Entre o Larouco e o Leiranco" (Foto-Reportagem)

7 de Junho                                 

Introdução

Não. Hoje não vou contar mais uma história montanheira. O texto seguinte é pura e simplesmente um desabafo, um deitar cá para fora de uma série de pensamentos e reflexões. Apesar de não ser mais que um inconsequente e porventura inútil post, ou então, como eu tanto gosto de lhe chamar, um grito mudo, a verdade é que ele procura (de uma forma ingénua, mas ao mesmo tempo intencional) chamar atenção dos leitores para alguns dos problemas que se vêm entranhando, de forma subtil e por vezes imperceptível, na nossa sociedade contemporânea.
A foto-reportagem, apesar de aparentemente encontrar-se descontextualizada do presente texto e dos temas nele abordados, mais não pretende ser do que um simples e eficaz complemento visual, onde, e através da fotografia (puramente amadora) o leitor é levado até às montanhas, e, assim, quem sabe, perceber que há toda uma outra vida que se encontra muito para lá das paredes cubiculares onde jaz a paisagem dos nossos dias.


“Overdose Civilizacional” (Texto)                        


Ando chateado… não comigo, mas com todos aqueles parvalhões para quem a Montanha não é mais do que um lugar distante e o qual (muito) raramente se visita. Ao longo dos tempos tem-se criado a percepção errada de que a Montanha é também um lugar supostamente inacessível, bué desconfortável e acima de tudo selvagem e perigoso.
Mas apesar de todas estas conotações negativas em relação à Montanha, porque será que um punhado de tipos insiste em romper trilhos há muito ignorados, irremediavelmente votados ao abandono e ao esquecimento? Porquê carregar o peso de uma inútil mochila sobre as costas quando se adivinha pela frente um longo e penoso calvário pelas infernais encostas da Montanha? E onde está, afinal de contas, o fascínio que esta gente sente quando, com a mesma expressão pavloviana estampada no rosto, detêm-se extasiadas perante o vislumbre de uma simples e ao mesmo tempo efémera paisagem? E porquê a constante necessidade de partilha de todos esses momentos com outras pessoas, companheiros(as) dessa… como é que eu hei-de dizer…vadiagem gratuita?
Para quê ir lá para cima, porquê o reencontro com essa primitiva pureza, se cá em baixo temos tudo aquilo de que realmente necessitamos para satisfazer as mais básicas e elementares necessidades, tanto as do inconformável corpo, como as do insaciável espírito? Tendo o mais comum dos mortais à sua inteira disposição a mais vasta soma de civilização material e intelectual, porque carga d'água haveríamos de levantar do sofá e deambular por esses montes fora em busca de algo que, ao fim e ao cabo, nem sequer sabemos exactamente o que é, numa inútil e inconsequente quimera, sem aparente fim à vista? E incompreensivelmente, em cada linha de um simples gesto, no espaço que separa o pensamento da involuntária acção, a mesma enfastiante expressão de tédio e desencanto. Na infelicidade que o preenche, na solidão que o acompanha, o homem contemporâneo limita-se a percorrer de forma apática (embora consciente) um tormentoso caminho que inevitavelmente o conduzirá a um fatídico abismo. Será que não há retorno possível? O que fizemos nós de errado para chegar a este ponto? Qual o caminho de que nos desviamos?
Na sua devida medida, a constactação inequívoca de uma cada vez maior sedentarização, uma certa (e excessiva) dependência de mecanização, e acima de tudo um distanciamento cada vez maior das pessoas em relação à Natureza, com o consequente corte do cordão umbilical que outrora ligava as pessoas à terra, aos rios, às rochas, às árvores… enfim, a toda a fecunda vida que emana dessa transcendental força que é a Mãe Natureza (a Mãe de todas as mães), não será, porventura, um dos factores responsáveis pelo actual estado das coisas? Não estaremos nós demasiado afastados do que é natural e ao mesmo tempo demasiado dependentes de tudo o que é supérfluo, artificial, metabolicamente sofrendo uma espécie de overdose civilizacional?
Deixo-vos de seguida um excerto de um texto do nosso Eça de Queirós, intitulado “Civilização” (pequeno ensaio para aquela que viria a tornar-se uma das mais deliciosas obras do escritor, "A Cidade e as Serras"), retirado da obra “Contos”, que explicará (certamente bem melhor do que eu) tudo aquilo que humildemente (embora toscamente) tentei transmitir ao meu caro e errante leitor. Ora aqui vai:

«...De resto, que importa bendizer ou maldizer da vida? Afortunada ou dolorosa, fecunda ou vã, ela tem de ser vivida. Loucos aqueles que, para a atravessar, se embrulham desde logo em pesados véus de tristeza e desilusão, de sorte que na sua estrada tudo lhes seja negrume, não só as léguas realmente escuras, mas mesmo aquelas em que cintila um sol amável. Na Terra tudo vive! E só o homem sente a dor e a desilusão da vida. E tanto mais as sente, quanto mais alarga e acumula a obra dessa inteligência que o torna humano, e que o separa da restante Natureza, impensante e inerte. É no máximo da civilização que ele experimenta o máximo de tédio. A sapiência, portanto, está em recuar até esse honesto mínimo de civilização, que consiste em ter em tecto de colmo, uma leira de terra e o grão para nela semear. Em resumo, para reaver a felicidade, é necessário regressar ao Paraíso. E ficar lá, quieto, na sua folha de vinha, inteiramente desguarnecido de civilização, contemplando o anho aos saltos entre o tomilho, e sem procurar, nem com o desejo, a árvore funesta da Ciência!...»

Pedro Durães

 
"Entre o Larouco e o Leiranco" (Foto-Reportagem):

  Vista para a aldeia de Codeçoso e montes circundantes, onde já se avista o primeiro objectivo do dia: “conquistar” o cume do monte do Ferronho (1217m), canto superior direito
 
Caminho e placa informativa da Grande Rota 25.1- Caminho Jacobeu Português (Transfronteiriço)
 
Subida a corta mato rumo ao marco geodésico do Ferronho (1217m), com vista privilegiada para a colossal Albufeira do Alto Rabagão (Pisões)
 
E para os lados do norte já se vislumbra a cumeada da imponente Serra do Larouco, com o cume da “montanha mãe” ainda envolto em neblina
 
Panorâmica a partir do marco geodésico do Ferronho (1217m)
(Foto gentilmente cedida pelo amigo H.Miranda)
 
E é precisamente das entranhas do monte do Ferronho que brotam as águas que darão corpo e alma ao mítico Rio Rabagão, um dos 3 principais cursos de água da região do Barroso, juntamente com o Beça (nascente localizada na Serra do Leiranco) e o Cávado (nascente localizada na Serra do Larouco)
 
Planalto barrosão
 
Maciço central da Serra do Leiranco. Infelizmente, as turbinas eólicas tomaram conta das terras altas do Leiranco, mas mesmo assim um dia destes vou ter que colocar lá as botas
 
Zoom ao bucólico lugarejo de S. Mateus, uma pequena aldeia “perdida” entre as serras do Larouco e Leiranco
 
 
É de facto impressionante a beleza ímpar da Serra do Larouco, mesmo sombria e carrancuda mantêm uma imponência, uma altivez, enfim, uma majestosidade de uma autêntica rainha. Lá ao fundo, no sopé da montanha, encontra-se a aldeia de Gralhas
 
Ponte do Rio da Assureira. Enquanto que lá em cima, vocês já sabem…
 
  E aqui estão os emplastros do dia
(Foto gentilmente cedida pelo amigo H.Miranda)
 
 
Campos floridos localizados no sopé da montanha do Picoto da Lagoa
 
Embora à primeira vista possa não parecer, trata-se mesmo de uma arcaica ponte de pedra com enormes e toscos blocos de granito a servir de tabuleiro
 
A partir deste ponto apanhámos boleia da Grande Rota 25.1- Caminho Jacobeu Português (Transfronteiriço), percorrendo os belos e ancestrais caminhos rurais
 
Aqui fomos literalmente obrigados a ceder passagem ;(
 
Antigo moinho junto aos campos de cultivo
 
Para mim caminhar no Barroso é sem dúvida alguma uma experiência única e inolvidável
 
 
Muros de pedra sobreposta revestidos com musgo, árvores centenárias adornadas de líquenes, enfim… uma beleza!
 
 E depois de um dia inteiro a espreitar lá para cima, surgiu finalmente a oportunidade para vislumbrar (e ao mesmo tempo recordar) o mítico cume da Serra do Larouco: o Larouquinho (centro da imagem)
 
«E o burro sou eu?...»
(Foto gentilmente cedida pelo amigo H.Miranda)
 
Um último olhar para a Serra do Larouco, aquela que eu pessoalmente considero ser não apenas a mais emblemática, como a mais autêntica e genuína serra barrosã
 
 
Adeus Codeçoso, ou melhor: até já Barroso!

  

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