«Querido leitor, escrevo-te da Montanha, do sítio onde medram as raízes deste blogue»

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

“De Parada do Outeiro a Pitões das Júnias”

30 de Agosto

30 de Agosto. A data que assinala o meu simples e efémero aniversário. Ao longo dos últimos anos enraizei o mau hábito (vá-se lá saber porquê…) de não atribuir grande relevância a esse número em concreto no calendário. Mas este ano foi diferente. Este ano a data teve um significado especial. Ela significou, mais do que qualquer outra coisa, uma oportunidade, uma maravilhosa oportunidade para um simples e muito bem passado dia na montanha. E como todo o bolo de aniversário não pode de forma alguma ser servido sem antes levar a respectiva cereja no topo do bolo, neste dia especial fui presenteado com a companhia de um grupo de amigos que já não via há muito tempo!
Depois de alguma indecisão relativa à escolha do percurso, optei por levá-los para aquele que eu há muitos anos atrás carinhosamente apelidei de “o meu Shangri-la”. Não me refiro, como é óbvio, ao “Shangri-la” do escritor inglês James Hilton, já que esse lugar mítico situa-se algures nas montanhas dos Himalaias e este “meu Shangri-la” é bem mais caseiro por assim dizer, e, imaginem só, localiza-se aqui mesmo ao lado, mais concretamente na vertente oriental da Serra do Gerês. Falo-vos do paradisíaco Vale do Rio Beredo.
Se há recordações que dificilmente se apagarão da minha memória, são precisamente a das primeiras incursões à vertente oriental da Serra do Gerês. É com uma certa nostalgia e um carinho especial que ainda me recordo de um recôndito vale e de um bosque encantado que serve de casa a duendes e fadas. Ainda não me esqueci das linhas de um jovem rosto narcisista reflectidas num espelho de águas cristalinas e cantantes. Por vezes ainda sinto a dor de cabeça quando me vem à memória da frustrante e inglória tentativa de decifrar o enigma de um misterioso amontoado de pedras dispersas no meio de um frondoso e espontâneo carvalhal. E jamais me esquecerei do calvário que voluntariamente suportei para ir ao encontro de um tal de S. João, cuja morada, vejam lá, situa-se precisamente no cume de uma alcantilada fraga e onde, após sofregamente lá chegar, mais não recebi por parte do anfitrião que um desconcertante, profundo e solene silêncio e onde me era concedido ver, apenas e só, uma triste e desoladora paisagem composta por «léguas e léguas de chão raivoso, contorcido, queimado por um sol de fogo ou por um frio de neve».
Mas hoje, ao recordar esses dias áureos, ainda sinto aquela profunda sensação de paz e tranquilidade que esse lugar divino e paradisíaco me transmitiu. Será que algum dia, em algum recôndito lugar desta pobre e humilde nesga de terra debruada por mar os meus olhos tornarão a ver tamanha beleza e o meu coração a sentir tão reconfortante quentura? Talvez… Ou talvez isto tudo não passe de (mais) uma ilusão, de (mais) um sonho...

Pedro Durães


Foto-Reportagem

Às 6h15m saio da tenda, aqueço um pouco de chocolate e preparo a máquina fotográfica e o tripé. Qual o objectivo deste despontar um tanto ou quanto madrugador? Penso que as 2 primeiras fotos deste post são mais que esclarecedoras…

... Jamais esquecerei esta alvorada junto à Albufeira do Alto Cávado. Simplesmente… mágica!!!

Envolvente paisagística da aldeia de Outeiro: a simbiose perfeita entre o homem e a natureza

Fojo do Lobo de Parada do Outeiro (Fojo de Cabrita) perfeitamente dissimulado entre a rocha e a vegetação do local

 Porta de entrada no “meu Shangri-la”

O caminho encontra-se guardado por gigantes de pedra

Carvalhal autóctone

Até pode ser (muito) difícil de acreditar, mas em tempos a Serra do Gerês foi um autêntico carvalhal a céu aberto

O secular caminho que liga a aldeia de Parada do Outeiro a Pitões das Júnias é um dos mais belos que já percorri!

A colossal cascata do Ribeiro de Campesinho, vulgarmente conhecida como cascata de Pitões

Ruínas do complexo religioso do mosteiro de Santa Maria das Júnias

Não seria de todo uma má ideia colocar umas destas placas nas denominadas “porta de entrada” do PNPG…

Foto “clássica” da aldeia e da envolvente serrana de Pitões das Júnias a partir do marco geodésico do Anjo (1132m)

Vale da Ribeira das Aveleiras (afluente do Rio Beredo)

Ao longe já se avista o “farol” de S. João da Fraga. A ideia era subir ao cume da imponente fraga, mas as altas temperaturas previstas para o dia fizeram-nos alterar os planos

Ruinas da aldeia medieval de Juriz

Vale do Rio Beredo

Mas que belíssimo trecho do percurso!

Fortuitamente acabamos por ir ao encontro desta fantástica piscina natural localizada a jusante da Ponte de Pereira

No coração da Mata do Beredo

E aqui estão os camaradas que me acompanharam nesta memorável jornada pelo Vale do Rio Beredo. Obrigado malta!

Um Totem?

E paulatinamente acabamos por ir ao encontro da margem esquerda da Albufeira de Paradela

Panorâmica da Albufeira de Paradela

Aldeia de Outeiro com os seus lameiros e campos de cultivo


2 comentários:

Alberto Pereira disse...

Brutal caminhada;
texto delicioso;
e uma reportagem fotográfica a fazer sonhar!

Parabéns montanheiro amigo!

E a ideia de colocar as placas junto das tais 'portas' é muito boa. Tens o meu apoio!

Grande abraço

Pedro Durães disse...

Olá amigo Alberto,

- Muito obrigado pelas tuas sinceras palavras. As fotos não são mais que uma inglória tentativa de mostrar ao leitor alguns momentos marcantes de mais uma memorável incursão por esses montes fora. E o vale do Rio Beredo é de facto um lugar repleto de misticismo e de uma beleza arrebatadora. Um verdadeiro oásis escondido entre a penedia geresiana, ou como descreve o escritor inglês James Hilton: Um “Shangri-la”!

Um Abraço Montanheiro,
Pedro Durães