«Querido leitor, escrevo-te da Montanha, do sítio onde medram as raízes deste blogue»

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

“Por Montes e Vales do Barroso”

29 de Novembro

O Barroso é um reino, um pequeno reino de montes e vales encarquilhados e encaixados no extremo norte de Portugal. A acidentada orografia do terreno, aliada a um clima implacavelmente agreste, moldou não apenas a embrutecida terra, como também as suas gentes. Resultado do isolamento geográfico e de um crescente sentimento de abandono e esquecimento perpetrado na região pelos representantes do poder político, enraizou-se nas Terras de Barroso uma identidade cultural muito própria, assente em valores centrados na defesa da honra e na salvaguarda do seu bem mais precioso: a terra. Fruto acumulado de anos e anos de experiência, o povo barrosão, de uma forma sábia e ponderada, usou os recursos naturais da região para dela retirar o seu parco sustento, moldando a fragosa paisagem de uma forma ordeira e harmoniosa, criando um equilíbrio perfeito entre as necessidades do homem e da natureza.
Em meados do século passado, o poder político descobriu no amplo planalto barrosão um recurso natural precioso e abundante: a água. Deu-se então início à construção de inúmeras barragens, sem qualquer tipo de preocupação em relação ao impacto ambiental e paisagístico provocado por esse fenómeno que, segundo os mais altos quadros da nação fascista, iria dotar a região de infraestruturas modernas, colocando-a finalmente na rota do progresso e desenvolvimento.
Várias décadas volvidas, uma nova onda de modernidade assolou as Terras de Barroso e as chamadas energias verdes (eólicas), instalaram-se nos píncaros serranos. As terras altas de Barroso viram-se, num curto espaço de anos, “colonizadas” por dezenas (para não dizer centenas) de torres eólicas. Criou-se uma mão cheia de parques eólicos, esventrou-se a serra com a abertura de estradas e os mais recônditos ermos das serras barrosãs tornaram-se acessíveis e visitáveis pelo mais comum dos incautos.
Contudo, e apesar da mutilação paisagística a que as Terras de Barroso foram submetidas ao longo dos anos, os montes barrosões preservam ainda alguns (poucos) locais surpreendentemente impolutos, quase intocados pela mão do homem, permitindo-nos contemplar um outrora Barroso bravio e selvagem. As encostas da vertente oeste da Serra do Larouco (mais concretamente uma imponente linha de cumeada transfronteiriça que se estende desde o Coto de Sendim até ao Alto de Vaires, já nas faldas do Planalto da Mourela) é, na minha opinião, um dos últimos bastiões de vida selvagem que nos dias de hoje (ainda) podemos encontrar nas Terras de Barroso.
Enquanto caminhava, uma pergunta, no entanto, pairava solenemente sobre um resplandecente céu azul: Quando chegará, afinal de contas, o funesto dia da profanação destes montes? Por quanto mais tempo este local manter-se-á tal como está, imaculado? Certamente que os representantes do poder político, de uma forma sábia e ponderada, encontrarão as melhores respostas. O passado recente é, sem sombra de dúvida, a prova disso mesmo.

Pedro Durães

Foto-Reportagem

Caminho tradicional que liga as aldeias de Sezelhe e Travassos

Escultura em relevo na homónima Torre do Boi, aldeia de Travassos

Vale da Ribeira de Rio Mau com a sua densa e bem preservada mancha autóctone de carvalhal

Lameiro irrompendo por entre o carvalhal caducifólio

Cascata de Barrondas. Confesso que esperava assistir a uma fulgurante palete de cores proporcionada pelas cores quentes de Outono, mas o Inverno, pelo menos aqui no Barroso, chegou um pouco mais cedo… L

Zoom à cascata de Barrondas. Foi construído um passadiço em madeira que permite o acesso até à base da cascata, mas atenção: o local é extremamente perigoso e um pé fora do trilho pode ser fatal!

Partindo à descoberta dos ancestrais caminhos do Vale da Ribeira de Rio Mau. A partir deste ponto e até perto do final do percurso o plano consistia em pura e simplesmente explorar a vertente oeste da Serra do Larouco (Vale do Alto Cávado)

Vista para a montanha do Rochão (1.401m). O cume da montanha indica o extremo leste abrangido pelo território do Parque Nacional da Peneda-Gerês

Confesso que fiquei bastante surpreendido por ver um belo conjunto de lameiros a uma altitude situada entre os 1200 e 1300m

Panorâmica norte a partir do cume do Rochão (1.401m). Uma desafogada e imaculada vista que se estende desde...
(Foto gentilmente cedida pelo camarada H. Miranda)

os Cotos da Gralheira, na Serra do Gerês, até…

à vizinha Serra do Larouco, onde é perfeitamente visível os primeiros “farrapos de neve” de um Inverno que este ano chegou um pouco mais cedo às Terras de Barroso

Influenciado por um microclima atlântico (mais húmido), nas encostas da vertente oeste da Serra do Larouco (Vale do Alto Cávado) predominam as manchas autóctones de carvalhal. Aqui, o que não falta mesmo são carvalhos a rebentar por todos os lados!

Com os caminhos rurais completamente encharcados em água e lama, por vezes a melhor opção foi saltar o muro de pedra sobreposta e caminhar literalmente junto aos lameiros

Este pareceu-nos um bom local para um almoço um tanto ou quanto tardio

As águas andam turbulentas...

A boa disposição é uma constante sempre que se finaliza o almoço com a degustação de um café quentinho e acabadinho de sair da cafeteira… acompanhado, lá está, por um bom bagaço caseiro! J

Com um almoço tardio, já só restava-nos pouco mais de 1 hora de luz disponível, o que fez com que decidíssemos cancelar a subida ao cume de Frades (1.175m, canto superior direito). Optamos por terminar esta nossa jornada por montes e vales do Barroso de uma forma traquila e acima de tudo segura: seguimos o antigo caminho rural que liga as aldeias de Mourilhe, Frades e Sezelhe, terminando a caminhada já de noite



4 comentários:

Lírio disse...

Magnífico Pedro!

Um grande abraço
Lírio

Pedro Durães disse...


Olá Lírio,

- Muito obrigado pela visita amiga, volta sempre!

Um Abraço Montanheiro,
Pedro Durães

Alberto Pereira disse...

Amigo Pedro,

Belo 'post' este!

Que estes montes permaneçam esquecidos e afastados da cobiça humana por muitos e longos anos.

Parabéns pelo bom gosto!

Abraço

Pedro Durães disse...

Olá montanheiro,

- Uma vez mais, muito obrigado pela simpatia amigo Alberto.
- A maioria das pessoas não faz a mais pálida ideia de como seriam as Terras de Barroso antes da profanação dos seus montes. A mutilação paisagística será para continuar no futuro próximo (apesar do chavão oficial dos políticos locais apregoar precisamente o contrário). E assim, o Barroso bravio e selvagem, a terra de homens conquistada aos lobos, manter-se-á como uma degradante caricatura daquilo que um dia já foi. Infelizmente.

Um Abraço Montanheiro,
Pedro Durães